| Vivemos, atualmente, num mundo de profundas transformações nos diversos setores da sociedade: econômico, político, educacional, religioso, entre tantos outros. Dentre essas mudanças destacamos aquelas provenientes do desenvolvimento de teorias educacionais, pelo menos aquelas pautadas no paradigma emergente, que já não concebe crianças/alunos como meros recipientes de conhecimentos pré-estabelecidos. Os seres humanos, desde a mais tenra idade, são, na verdade, sujeitos capazes de aprender, não apenas pelo exercício da imitação e da repetição, mas também pelas maneiras como reelaboram suas experiências, seja na família e na escola, seja na sociedade como um todo, através de suas vivências e observações.
Assim, estamos dizendo que acreditamos numa educação capaz de colocar o aprendiz como centro do processo ensino-aprendizagem, no qual ele e os educadores (formais e informais) têm papéis definidos, colocando-se, entre si, numa relação não mais verticalizada, mas numa relação horizontalizada, na qual se exige um facilitador, e não um adulto autoritário que conduza com mão de ferro os processos.
Dessa maneira, atitudes que colocavam as crianças só um pouco acima da escala dos animais, e/ou considerando-as adultos em miniatura, a serem educadas com severidade e, quase sempre, com crueldade, estão sendo condenadas, não só pelas teorias da aprendizagem, mas também por outros ramos da ciência, que vêm realizando estudos que apontam muitos problemas emocionais como resultantes de uma infância vitimada por uma educação severa, na maioria das vezes violenta, desencadeadora de mecanismos que levam muitos sujeitos a terem uma baixa autoestima, tornando-os incapazes, na maioria das vezes, de acreditar em si mesmos.
Nesse contexto, ressaltamos que o mundo, mesmo com todas as transformações e com os avanços vertiginosos em todos os campos, ainda não resolveu o problema da violência, e, o que é mais grave, os índices estão piorando, sobremaneira com o advento das drogas que invadem, cada vez mais, a vida de muitos brasileiros, levando-os a um caminho de destruição. Tal comportamento tem desafiado mães, pais e educadoras/es de um modo geral, a se engajarem na transformação dessa triste realidade.
É aqui que deveriam entrar as mães, os pais ou responsáveis por crianças e adolescentes, envolvendo-os nos desafios, a fim de prepará-los para o enfrentamento das mazelas desencadeadas pela sociedade dita pós-moderna. Para que isso aconteça, é preciso estar atento à questão de serem as atitudes muito mais fortes do que as palavras, nos processos educativos que envolvem crianças/adolescentes, ou mesmo adultos.
Enquanto as palavras soam como sentenças quase sempre ignoradas pelas crianças e adolescentes, as atitudes marcam com vigor a vida desses seres em contínua construção.
É por isso que conclamamos os que se encontram envolvidos em processos educacionais, sejam mães, pais, responsáveis ou educadores formais, a preocuparem-se com a forma como se dirigem àqueles que estão sob sua responsabilidade, pois, para o bem ou para o mal, educamos mais pelo exemplo, do que pelas palavras ou, muito menos, pelas palmadas.
Penso que aqueles métodos, utilizados pelos nossos avôs e avós ou pais, já não combinam com os novos tempos. Afinal, a ciência evoluiu e, com ela, a compreensão sobre o processo de formação/educação do ser humano, desde a mais tenra idade.
Melhor que bater ou gritar, é chamar para uma conversa. Pois, mesmo aquelas crianças pequenas de dois ou três anos de idade, do seu jeito, já percebem e até aprendem, ao nos observarem. Quem já não viu alguma criança brincando com seus bonecos ou coleguinhas, ameaçando-os de ficarem de castigo ou mesmo de dar-lhes uma surra, caso não ajam segundo as orientações? Onde será que elas, tão pequenas, aprenderam isso? Em casa? Na escola, ou em outros grupos de convívio? Melhor mesmo seria aprender com algumas tribos indígenas, nas quais os adultos agacham-se para se colocar do tamanho de suas crianças, e aí, sim, passam a conversar ou mesmo a corrigi-las.
Não estou convidando as pessoas a tornarem-se perniciosas, pois, nós, adultos, temos responsabilidade em formar os adultos do futuro. Contudo, precisamos modificar nossos métodos, nossas representações, muitas vezes marcadas por lembranças de uma infância, na qual muitos adultos nos faziam calar, e mesmo nos comparavam a animais, quando afirmavam: “criança e cachorro devem estar embaixo da mesa”. Esse discurso não é mais cabível. Por isso, precisamos desenvolver estratégias, para criar nossos filhos ou tutelados, pautadas no respeito aos outros. Todos, desde a fecundação, são indivíduos que trazem marcas genéticas que precisarão ser buriladas nos processos de aprendizagem, quando rompem a barreira da bolsa na qual foram gestados, e passam a conviver com o mundo, fora da protetora matriz.
Lamentavelmente, ainda hoje, estamos discutindo se se deverão proibir castigos físicos de crianças e adolescentes, após 20 anos de existência do Estatuto da Criança e do Adolescente (LEI Nº 8.069, DE 13 DE JULHO DE 1990). Se há projeto de proibição, é porque pessoas ainda estão tratando suas crianças e jovens com violência.
Sou pai de três adolescentes, nunca usei força física e sempre procurei tratá-los com respeito e, sobretudo, com muito amor. É claro que os conflitos são inevitáveis; no cotidiano vamos procurando resolvê-los juntos. Contudo, após tantos anos exercitando o diálogo e procurando educá-los para viverem de forma mais harmoniosa com os outros e com o próprio mundo, penso que tenho conseguido “dar conta do recado”. Em nossa casa, vivemos num ambiente alegre e de muito respeito, onde todos procuram, através do diálogo, colocar suas idéias e defender seus pontos de vista. Tem dado certo, até aqui. Sinto-me feliz em saber que estou modificando aqueles métodos utilizados por nossos avós e pais; não que eles fossem ruins, faziam o que acreditavam ser o melhor, e o que socialmente se exigia deles. Cabe a cada um, atualmente, mãe, pai ou responsável decidir que tipo de estratégias utilizará para ajudar a formar seus filhos ou tutelados. Quanto a mim, acredito no diálogo e no amor como dois ingredientes de suma importância no processo educacional. |